Urna eletrônica completa 30 anos: Descubra a evolução da tecnologia que revolucionou as eleições no Brasil
Um dos instrumentos mais essenciais nas eleições, a urna eletrônica atinge a marca de 30 anos nesta semana. Foi em 13 de maio de 1996 que as primeiras urnas para votação digital foram enviadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aos estados, simbolizando um marco na democracia.
📍E foi em São José dos Campos, reconhecida por ser um polo tecnológico no Brasil, que o embrião dessas máquinas surgiu.
Elaborada no eixo Brasília (DF) – São Paulo (SP), o dispositivo teve como fundamento para seu desenvolvimento as ideias de engenheiros e pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e do Centro Técnico Aeroespacial (CTA), ambos localizados no interior de São Paulo. O grupo foi denominado de ‘ninjas’ 🥷. (leia mais abaixo)
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Além dos técnicos dessas instituições, também participaram da criação das urnas membros da diretoria do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), secretários dos TREs de outros estados, professores e outros especialistas em tecnologia e processos eleitorais.
A urna eletrônica está presente em todas as cidades do país durante as eleições.
Reprodução/TRE-RN
A ideia de informatizar o voto começou a tomar forma entre o final dos anos 1980 e o início da década de 1990, mas foi precisamente em 1995 que a Justiça Eleitoral decidiu implementar a ideia da urna como a conhecemos atualmente. (veja abaixo a cronologia da criação da urna eletrônica)
Em entrevista ao g1, o ex-ministro Carlos Velloso, que assumiria a presidência do TSE na época, contou que a ideia surgiu em uma conversa com o então superintendente do Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) do órgão, Paulo Camarão, durante uma partida de tênis, em Brasília, em dezembro de 1994.
“Tudo começou com uma simples conversa, no intervalo de partidas de tênis, no Club Naval de Brasília, com o técnico em informática Paulo César Camarão. Ao assumir a presidência do TSE, coloquei a matéria à votação do Tribunal, que decidiu pela informatização do voto,” relembrou.
Na presidência, Velloso revelou que nomeou Camarão como secretário de informática do Tribunal. A partir desse momento, foi criada uma comissão dividida em cinco sub-relatorias: Código Eleitoral, Reforma Partidária, Sistemas Eleitorais, Financiamento de Campanhas e Informatização do Voto.
📅⏰ Da conversa na partida de tênis à criação das comissões, se passaram cerca de quatro meses. Desde então até a entrega da primeira urna eletrônica, segundo Camarão, foram mais 12 meses, totalizando 16 meses da ideia à execução do projeto.
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Imagem de arquivo mostra a comissão técnica que ficou famosa como os ‘ninjas’
Divulgação/TSE
Os técnicos que desenvolveram a urna foram chamados de ‘ninjas’. Entre eles estavam: Paulo Nakaya, Mauro Hashioka e Antônio Ésio Salgado, o ‘Toné’, todos do Inpe, além de Oswaldo Catsumi, do Instituto de Estudos Avançados (IEAv), ligado à Aeronáutica, e Giuseppe Janino. Todos liderados por Paulo Camarão. (veja foto acima)
“Coordenar uma equipe tão diversa quanto a do projeto da urna eletrônica não foi tarefa simples, especialmente porque envolvia perfis distintos voltados à informática, como hardware, software, segurança, logística e outros. O desafio e a meta de alcançarmos o sucesso, garantindo eleições seguras, foram cruciais para a união do grupo,” recordou Camarão.
Segundo Velloso, a ideia de convocar engenheiros e técnicos do Inpe e do CTA surgiu pelo fato de ambos serem referências, e o objetivo do TSE era utilizar, na época, os melhores recursos disponíveis para a informatização do voto.
“Os técnicos do Inpe e do Instituto Tecnológico da Aeronáutica [ITA] sempre foram respeitados e reconhecidos pela sua qualidade. Buscamos apoio em outros centros de conhecimento tecnológico, como o Ministério de Ciência e Tecnologia, a Telebrás e órgãos técnicos estaduais,” relatou.
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Infográfico: Veja a cronologia da urna eletrônica no Brasil
Arte/g1
Medos e desafios
Além disso, em entrevista ao g1, o engenheiro Antônio Ésio Salgado, o ‘Toné’, um dos “ninjas” que conceberam a urna, explicou que o maior desafio na época era desenvolver um produto robusto e seguro.
O primeiro modelo da urna eletrônica foi a UE96, que possuía um teclado numérico semelhante ao de um telefone. O dispositivo também tinha 2 megabites (MB) de memória, além de dois disquetes. Em 1996, ela foi utilizada por aproximadamente 30% do eleitorado.
Antonio Esio Salgado, o ‘Toné’, um dos criadores da urna eletrônica, celebra os 30 anos do dispositivo em entrevista ao TSE.
O cientista político e professor da Universidade de Taubaté (Unitau), José Maurício Cardoso do Rego, relembrou que, antes de 1996, sem a urna eletrônica, o que se apresentava era um sistema que favorecia fraudes eleitorais através da contagem manual de votos e utilização de cédulas de papel.
“É importante lembrar que o Brasil [naquela época] tinha e possui uma tradição muito forte de mandonismo e coronelismo, sendo comum ouvir relatos de fraudes, manipulações e conduções ilegais do processo eleitoral. Com a introdução das urnas eletrônicas pelo Tribunal Superior Eleitoral, houve uma clara inibição desse processo,” afirmou.
Na presidência do TSE, Nunes Marques defende a robustez e credibilidade das urnas.
TSE divulga respostas aos questionamentos sobre urnas eletrônicas
Imagem de arquivo – Primeira urna eletrônica desenvolvida, em 1996, a UE96
Divulgação/TSE
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Para Osvaldo Catsumi, que também fez parte do grupo dos “ninjas” responsáveis pela operação que criou a urna eletrônica, o prazo concedido para que os estudos fossem realizados foi fundamental na geração de um equipamento considerado seguro.
“O fator mais impactante foi o tempo que nos foi dado para realizar todos os estudos, identificar os objetivos, elaborar o projeto descritivo, definir os parâmetros e requisitos técnicos e criar um edital para a contratação de uma empresa para implementar os equipamentos e software,” disse.
Imagem de arquivo – Protótipo da urna eletrônica usada no TRE do Rio Grande do Sul
Divulgação/TSE
Ataques às urnas
De acordo com Toné, desde o início, a preocupação sempre foi desenvolver um sistema que garantisse a urna sem chances de fraudes.
Além disso, a urna, ao longo dos anos, acompanhou as inovações tecnológicas, evoluindo de disquetes para processadores modernos. No entanto, os princípios de segurança permanecem inalterados.
Segundo Carlos Velloso, a urna eletrônica e a informatização do voto surgiram para eliminar fraudes.
“Estamos sob princípios de segurança rigorosos que são constantemente aprimorados. À medida que a solução era desenvolvida, a comunidade técnica testava possibilidades de ataque a cada tipo de componente ou software, e medidas eram imediatamente tomadas antes que se tornassem uma ameaça para a urna eletrônica. É como uma corrida constante, sempre implementando novos requisitos de segurança,” afirmou Velloso.
O pioneiro do voto eletrônico no Brasil ainda criticou aqueles que pedem o retorno do voto em cédula de papel.
“Hoje em dia, tudo é informatizado: bancos, comércio, cartões de crédito, repartições públicas e aeroportos. Portanto, qual é a conclusão que podemos tirar diante de quem quer o retorno ao método antigo, cheio de fraudes, principalmente na contagem de votos? O que realmente quer essa minoria que critica as urnas eletrônicas? Um retorno ao sistema fraudulento?”, disparou.
Catsumi ressaltou que qualquer vulnerabilidade de segurança nas urnas eletrônicas sempre foi tratada como prioridade, e essa filosofia de prevenção em relação a inseguranças foi adotada desde o início do projeto.
“As vulnerabilidades de segurança sempre foram avaliadas como prioritárias nos sistemas eleitorais. Os riscos associados às tecnologias e procedimentos, sejam eles manuais ou automatizados, são identificados em cada eleição a ser realizada para criar mecanismos de defesa,” relembrou.
Teste público de segurança dos Sistemas Eleitorais em 2025
Divulgação/TSE
🔒Segurança
Um ano antes da disputa eleitoral, o TSE realiza o chamado Teste Público de Segurança dos Sistemas Eleitorais — ou o ‘Teste da Urna’ –, onde são feitas simulações de ataques reais para avaliar a segurança dos sistemas de votação, apuração e totalização.
O teste, aberto a cidadãos maiores de 18 anos, foi criado nos anos 2000. Na última edição, 15 grupos com 27 investigadores participaram do teste.
Para as eleições de 2026, conforme o calendário eleitoral, a etapa final do teste ocorrerá entre os dias 13 e 15 de maio, denominada de Teste de Confirmação.
Além disso, segundo o TSE, as urnas eletrônicas apenas funcionam com softwares oficiais desenvolvidos pela Justiça Eleitoral, assinados digitalmente e lacrados em cerimônia pública um mês antes das eleições.
Diversos fatores de segurança também acompanham a urna, como Registro Digital do Voto (RDV), hardwares de segurança e criptografia, por exemplo.
Fato ou Fake: como funciona a urna eletrônica e quais são as principais #FAKES sobre ela
Infográfico apresenta o cronograma das próximas eleições, em outubro de 2026.
Arte/g1
Orgulho e inspiração
Resistindo a ataques há três décadas, as urnas eletrônicas serão utilizadas, em 2026, pela 16ª vez e são fonte de orgulho para os criadores do projeto no Brasil.
🌏Além do Brasil, pelo menos 33 países já aplicaram algum tipo de votação eletrônica, em modelos que variam do uso total das urnas a sistemas híbridos com voto em papel, respeitando a legislação eleitoral de cada nação. A Índia, que realiza a maior eleição do mundo, é um deles.
Imagens da eleição com urna eletrônica na Índia
Arquivo
Sendo um dos principais instrumentos da democracia brasileira, a urna eletrônica é motivo de orgulho para seus desenvolvedores.
A urna eletrônica proporcionará um tempo extra para o eleitor confirmar seu voto.
Já na perspectiva de Catsumi, ainda existem oportunidades para evoluir e aprimorar cada vez mais a urna eletrônica brasileira.
“A continuidade é sempre um fator motivador para manter o espírito de progresso. Apesar de todas as inovações e resultados alcançados ao longo dessas três décadas, acreditamos que ainda há espaço para melhorias. Nesse percurso, haverá grandes desafios e conquistas proporcionais,” comentou.
Toné acredita que a urna é um projeto que ajudou a fortalecer a tecnologia da Justiça Eleitoral e, ao ver isso, sente-se Feliz.
“Isso gera uma satisfação muito especial, porque é a sensação de que realmente contribuí para algo significativo,” celebrou.
O ex-ministro Carlos Velloso afirmou que presenciar a urna regendo a democracia brasileira é uma realização.
“Estar à frente de um trabalho com pessoas de altíssimo nível intelectual, tecnológico e, acima de tudo, moral, que trabalharam com boa vontade. A urna eletrônica legitima mais as eleições, e por consequência legitima a democracia representativa que vivenciamos, e pela qual temos a possibilidade de vivenciar. Sou grato a Deus por ter vivido para ver tudo isso,” concluiu.
Fachada do prédio do Tribunal Superior Eleitoral (TSE)
Luiz Roberto/TSE